O famigerado present perfect e a língua materna como ferramenta de ensino

As melhores gramáticas de inglês como língua estrangeira estão escritas em inglês, por nativos de inglês. Isso dificulta a leitura para quem não domina a língua, ou seja, fatalmente, 100% do público-alvo delas, não só porque as explicações, muitas vezes complexas e abstratas, não são escritas no idioma do leitor, mas também porque se baseiam na lógica do pensamento inglês. Mesmo que o usuário brasileiro da gramática entenda o texto do livro, será que consegue compreender os parâmetros e diferenciações expostos, já que sua própria forma de pensar é pautada no português?

Tomemos como exemplo o caso do famigerado present perfect. A gramática intitulada English Grammar in Use de Raymond Murphy, publicada pela Cambridge University Press, afirma, com muita propriedade, que “The present perfect is a present tense. It always tells us something about now.” Segue-se o exemplo “Tom has lost his key.” com o esclarecimento “= he doesn’t have his key now.”

Ao ler isso, o aprendiz brasileiro pergunta, com toda a razão: “Primeiro, se ‘he has lost his key’ traduz-se por ‘ele perdeu a chave’, ou seja, a perda da chave aconteceu no passado, como se pode afirmar que o present perfect fala do presente? Segundo, se ele perdeu a chave, é claro que ele não tem a chave agora.”

Na introdução sobre o present perfect da gramática Practical English Usage de Michael Swan, publicada pela Oxford University Press, lê-se o seguinte: “If we say that something has happened [present perfect], we are thinking about the past and the present at the same time.” Para um nativo de inglês, que já sabe usar o present perfect, essa afirmação faz todo o sentido. Já o aprendiz brasileiro pode perguntar, com toda a razão: “Oi? Como é que é? Pensar no passado e no presente ao mesmo tempo?”

As duas gramáticas citadas são obras excelentes e eu as uso e recomendo sempre. Justiça seja feita, nos livros as explicações acima são complementadas por mais detalhes e exemplos abundantes. Porém, destinadas como são a falantes de qualquer idioma, essas obras não levam em conta o ponto de partida do aprendiz, que é sua língua materna. O pensamento dele é pautado em sua língua materna e ele só tem dificuldade com a gramática inglesa na medida em que essa difere daquela de sua língua materna. Por que é que o brasileiro não tem maiores problemas com a diferença entre o presente simples (I speak) e o presente progressivo (I am speaking) em inglês? Porque existem dois tempos correspondentes em português e seu uso é muito parecido nos dois idiomas. Por que é que os franceses e alemães têm tanta dificuldade com esses tempos? Porque em francês e alemão não existe um tempo presente progressivo. Por que é que o brasileiro tem tanta dificuldade com o present perfect? Porque não existe tempo verbal exatamente igual em português e, como se isso não bastasse, o present perfect inglês corresponde ora ao pretérito perfeito, ora ao presente em português (quando se fala de uma ação que começou no passado e continua no presente). Mas o simple past inglês também pode corresponder ao pretérito perfeito, então como saber quando traduzir o pretérito perfeito pelo present perfect e quando pelo simple past? Eis o xis da questão para o brasileiro.

Estou usando a palavra traduzir, mas não quero dizer que a pessoa vai traduzindo conscientemente do português na hora de falar inglês. Isso pode até ocorrer bem no início da aprendizagem, mas logo logo se torna um processo inconsciente, com o tempo quiçá inexistente. Mas o pensamento do aprendiz continua pautado no português até ele desenvolver um feeling pelo inglês mediante um contato maciço com a língua através de muita leitura, listening e convivência com nativos. Mesmo assim, continuarão a aparecer alguns resquícios da influência da língua materna em pequenos erros pontuais, tais como uma preposição errada aqui, um vocábulo inadequado ali etc. Enquanto ele não desenvolver esse feeling, vai cometer erros calcados no português. Prova incontestável disso é o fato de todos os brasileiros cometerem os mesmos erros em inglês durante a aprendizagem e esses erros serem facilmente compreensíveis e explicáveis quando se compara a gramática inglesa com a portuguesa.

Voltando ao present perfect, o primeiro passo tem que ser identificar os erros mais comuns entre os brasileiros. O primeiro é o uso incorreto do tempo presente em vez do present perfect quando se fala de uma ação que começou no passado e continua no presente. Em vez do correto: “I have studied English for five years”, o aprendiz diz “*I study English for five years”, uma vez que se usa o tempo presente nesse tipo de frase em português. Esse uso continuativo do present perfect é relativamente fácil de reconhecer devido à presença obrigatória de uma expressão da duração da ação, tipicamente introduzida por “for”, “since” ou “how long?”. Como é fácil de reconhecer, é relativamente fácil corrigir o erro, sobretudo quando se aponta ao aluno a diferença entre os dois idiomas.

Muito mais difíceis de corrigir são os casos em que o aluno usa o simple past onde se requer o present perfect, ou em que, em seu afã de usar o present perfect, um tempo verbal muito inglês, o aluno o emprega de forma inadequada. Origem do erro? Em português, usa-se em ambos os casos o pretérito perfeito indiscriminadamente. Como explicar essa diferenciação dos tempos verbais ingleses em termos que o aluno vai entender?

Que tal lançarmos mão da língua materna do aluno e da tradução? Pergunte ao aluno: qual a diferença entre “Você foi ao show da Beyoncé?” e “Você já foi ao show da Beyoncé?”. Qual a função do “já” na segunda frase? Como modifica o significado? Não é que cria uma ligação entre a ida ao show, em algum momento do passado, e o presente, pois significa “aconteceu até agora de você ir ao show da B.?”. O uso do “já” sugere que a ida ao show ainda é possível. Esse é exatamente o sentido do present perfect em inglês. Portanto, “Você foi ao show da Beyoncé?” traduz-se por “Did you go to the Beyoncé concert?” e “Você já foi ao show da Beyoncé?” por “Have you been to the Beyoncé concert?”. Ou seja, a ideia de “já” é inerente ao present perfect.

Em frases negativas, o que é inerente é a ideia de “ainda (não)”, a negativa de “já”: “I didn’t go to the Beyoncé concert” (Eu não fui …)” x “I haven’t been to the Beyoncé concert (Eu não fui … ainda)”. Importante ressaltar para o aluno que nem sempre as palavras “já” ou “ainda” são incluídas em português, mas basta a ideia delas estar presente para o present perfect ser o tempo indicado.

No entanto, essa explicação não abrange todos os usos do present perfect. Existe também o uso dele para relatar uma ação que acaba de acontecer criando uma nova situação no presente ou explicando a atual situação, do tipo “Tom has lost his key.”, “The patient has not suffered any permanent damage.”, “There’s been a change of plan.” etc. Esse tipo de frase não só pode sempre ser reformulado no tempo presente sem destoar do contexto, p.ex.: “Tom can’t find his key.”, “The patient doesn’t have any permanent injuries.” “The plan is now different etc.”, como também costuma vir acompanhado por outras frases que se refiram à presente situação. Portanto é importante exemplificar esse uso dentro de um contexto maior do que uma só frase isolada para o aluno poder entender o porquê do present perfect e a relação dele com o uso do presente. Não basta um exemplo como “Jane has broken her arm”; falta um complemento do tipo “and we have to get her to the hospital right away” para esclarecer a interação dos dois tempos verbais.

É sempre bom frisar algumas regras básicas e fáceis de aplicar, tais como a de que, se houver uma referência explícita ou implícita a um momento específico do passado ou período já concluído, ou por meio de um advérbio ou locução adverbial de tempo (p.ex.: yesterday, last week, just now, in 1922 etc.) ou pelo contexto em si (p.ex.: It was the Portuguese who discovered Brazil.) é excluído o uso do present perfect.

Aos alunos mais avançados, posso revelar que milhões de falantes do inglês americano, porém nem todos, praticamente só usam o present perfect em seu uso continuativo (explicado acima). Em todos os outros casos em que o uso do present perfect é recomendado pelas gramáticas, esses falantes empregam o simple past. Para mim, como britânico, esse emprego do simple past não soa errado, mas apenas diferente da minha própria variante de inglês. Portanto, uma boa dica ao falar inglês é, na dúvida, optar pelo simple past, fora nas frases continuativas, onde há uma importante diferença de significado entre “I have lived in Brazil for ten years” (moro … há …)  and “I lived in Brazil for ten years” (morei … durante …). Contudo, alguns desses usos digamos heterodoxos do simple past (p.ex.: “Did you ever go to a Beyoncé concert?” “No thanks, I just ate.” “Oh no! Tom lost his key again!” “Did you have lunch already?” etc.) são malvistos na linguagem mais formal e deveriam ser evitados em provas e redações.