Os verbos come e go e seus dois particípios

Os verbos come e go são entre os mais usados do inglês, e portanto entre os primeiros que se aprendem ao estudar a língua. A diferença de significado entre os dois é que come designa aproximação a quem fala, enquanto go denota afastamento de quem fala. É claro que o português tem dois verbos paralelos: vir e ir. Graças a esse paralelismo entre os dois idiomas, o aprendiz brasileiro de inglês costuma sair usando come and go sem maiores problemas.

No entanto, existem algumas particularidades desses dois verbos para as quais convém atentar. Primeiro, o inglês nem sempre respeita a dicotomia “come = aproximação ao falante, go = afastamento do falante”. Já o português a respeita à risca, o que leva a discrepâncias de uso entre os dois idiomas. Podem-se identificar dois casos específicos em que isso ocorre.  Primeiro, é uma regra do inglês que se usa come, e não go, quando se trata de aproximação ao interlocutor, ou seja, à pessoa com quem se fala. Portanto, nós dizemos “I’m coming over to your place for lunch” e não “I’m going …”, por exemplo. Pelo mesmo motivo, quando tocam a campainha, a gente grita “Coming!” e não “*Going!”, e quando dá aquela vontade de jogar tudo para o alto e buscar a fama, a frase correta é “Hollywood, here I come!”, e não “*Hollywood, there I go!”. A regra continua valendo mesmo que a pessoa com quem se fala não se encontre ainda, ou não se encontre mais, no lugar mencionado. Diz-se, então, “I’ll come and visit you when you move to London” e “But I did come to your wedding. Don’t you remember?” Nesses casos, emprega-se o verbo ir em português (“Vou aí na sua casa …”, “Já vai!”, “Hollywood, lá vou eu!”, “Vou te visitar …”, “Fui no seu casamento sim …”) e, consequentemente, o brasileiro tende a errar, usando go em tais situações.

Mas o inglês vai mais além. Desde que o deslocamento seja em direção ao interlocutor, emprega-se come mesmo que não seja o falante quem se desloca. Veja os seguintes exemplos: “Watch out! There’s a bear coming towards you!”, “So when is the technician coming to your place to fix the heating?”, “John said he’ll come and pick you up at the airport”. Essas frases também pedem o verbo ir em português. A propósito, se a frase fosse “there’s a bear going …”, não haveria motivo para preocupação, pois, justamente, go denota deslocamento a um terceiro lugar, longe do falante e do interlocutor.

A outra situação em que quebramos a regra básica é quando falante, interlocutor e até terceiros vão ficar juntos no deslocamento. No caso, usamos o verbo come.  Vejamos alguns exemplos: “I’m going to the mall. Do you want to come?” “Oh, you’re going to the movies? Can I come too?” “John wants to come with us to the museum.” O uso obrigatório do verbo ir nessas situações em português pode induzir ao erro em inglês.

Outra particularidade dos verbos come e go aparece quando vêm seguidos de um segundo verbo. Reza a gramática formal que o segundo verbo fica no infinitivo com to, p.ex.: “He came to see us last week”,  “We went to see a movie” etc., mas na linguagem informal, é muito mais comum substituir o to por and, o segundo verbo assumindo a mesma forma que o primeiro, como segue: “I have a very good technician who comes and fixes my computer.” “We went and saw a movie.” Observe que, ao se falar do passado, só se pode usar essa construção com and se a segunda ação se realizou de fato. Compare: “We went to see a movie, but it was sold out.” É lógico que não faria sentido dizer: “*We went and saw a movie, but it was sold out.” Também evitamos usar esse and depois das formas coming e going pois cria uma cacofonia. Portanto, dizemos “I’m coming to see you tomorrow”  e não “*I’m coming and seeing you …”. No inglês americano informal, é mais comum omitir to/and, mas apenas depois das formas de base come and go, e não depois de outras formas flexionadas. Portanto, diz-se “Let’s go see a movie” mas “She comes to see me every week” (ou “comes and sees me”). Vale ressaltar que, em ordens e pedidos, só usamos and e não to, portanto “Come and sit next to me” (e não “Come to sit …”), “Could you go and make some coffee?” (e não “go to make”). No inglês americano, o and seria omitido nessas frases.

Mas, e os dois particípios mencionados no título deste post? Pois é, você sabia que tanto o verbo come como o verbo go têm dois particípios passados diferentes cada um? Além do particípio come, o verbo come também possui o particípio been, e além de gone, o go também tem o particípio been. Existe uma importantíssima diferença de significado entre os dois particípios em cada caso. Compare as seguintes frases: “The singer has come to Brazil to give a series of concerts” x “The singer has already been to Brazil three times”; “Pedro has gone to New York” x “Pedro has been to New York”. Já matou a charada? Pois então, os particípios come e gone referem-se somente à vinda ou à ida respectivamente, enquanto been refere-se à vinda e volta, ou à ida e volta. Observe que, na frase “The singer has already been to Brazil three times”, ele/ela pode até estar curtindo a terceira estadia no Brasil ainda, mas o uso do been pressupõe que ele/ela vai embora de novo em algum momento.

Há quem dirá que esse been não é particípio dos verbos come e go, mas sim do verbo to be. Mas esse argumento não procede, devido ao uso da preposição to em frases desse tipo. A preposição to denota deslocamento de um lugar a outro, e é usada com verbos de movimento, tais como come e go. Já o verbo to be jamais atua como verbo de movimento; afinal, não se pode dizer em hipótese alguma “*she is to Brazil”. O verbo to be pode sim denotar localização (p.ex.: “She is in Brazil”), mas nesse uso tem que vir seguido de uma preposição de localização, como at, in, on etc.  Ou seja, não há dúvida de que aquele been dos exemplos acima é um verbo de movimento, só pode ser considerado forma do verbo come ou go.

A propósito, o inglês não é o único idioma em que os verbos to go e to be compartilham formas. Olha o português: fui, foi, fomos, foram etc. Curioso, não é?

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