To ou for? Eis a questão!

Uma das maiores dificuldades para o brasileiro ao se expressar em inglês é diferenciar as preposições to e for. Dei uma olhada em alguns dos inúmeros sites de gramática inglesa para brasileiros para ver se um deles dava uma explicação procedente, sucinta e de fácil aplicação, mas não achei nada satisfatório.  Nesse post, vou tentar esmiuçar um pouco mais essa questão no intuito não de fornecer uma solução milagrosa, mas sim de fixar seus parâmetros com mais clareza.

Primeiramente, convém esclarecer a origem do problema. Na grande maioria de seus usos, tanto to como for correspondem à preposição para em português, sobretudo na linguagem falada, que é a autêntica língua materna do brasileiro. Daí, ao traduzir na direção oposta, do português para o inglês, surge sempre a dúvida: nesse caso, para vira to ou for em inglês?

“Traduzir” é modo de falar aqui. Não se trata de traduzir conscientemente, palavra por palavra, do português para o inglês. Refiro-me a um processo mais sutil, em que a mente segue uma linha de pensamento pautada no português, já que não há outra alternativa até o aprendiz aprofundar muito mais seu conhecimento do inglês, a ponto de conseguir pautar seu pensamento na língua estrangeira. Pode levar anos para chegar a esse ponto, e só chega lá à custa de muito estudo e prática da língua.

Segundo, vale reiterar uma regra que se aplica sempre que o assunto é preposição: regência prevalece sobre qualquer outra consideração. O que significa isso? “Regência” é a denominação dada à relação de subordinação sintática entre uma palavra (substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo) e seu complemento. A regência dos substantivos, adjetivos e advérbios é sempre intermediada por uma preposição, e a dos verbos transitivos indiretos (ou verbos preposicionados) também. Qual preposição usar nesses casos não é uma questão de livre escolha; em matéria de regência, costuma-se dizer que uma palavra “exige” uma determinada preposição, p.ex.: “o verbo depender exige a preposição de”, “o adjetivo famoso exige a preposição por” e assim por diante. O inglês não é diferente, só que usamos o verbo take no lugar de exigir: “the verb depend takes the preposition on”, “the adjective famous takes the preposition for” etc.

Pois bem, existem palavras que exigem to e palavras que exigem for, assim como palavras que exigem outras preposições. É preciso decorar a preposição que ela exige junto com a palavra, pois em matéria de regência, nem sempre há muita lógica. Para se ter uma ideia, embora to seja a preposição que sinaliza o destino da grande maioria dos verbos de movimento, o verbo leave exige a preposição for (p.ex.: I’m leaving for Hawaii tomorrow). Vai entender.

É importante ressaltar que a mesma palavra pode ter várias regências diferentes, com significados distintos. Compare: “She’s always been very good to me” (Ela sempre foi muito bondosa comigo), “The experience will be good for you” (A experiência vai te fazer bem), “He’s very good at chess” (ele é muito bom em xadrez); “I was looking at the book” (Eu estava olhando o livro), “I was looking for the book” (Eu estava procurando o livro) etc. A diferença pode ser bem sutil: “Winning is important to me.” (= eu me importo em ganhar) x “Winning is important for me.” (= é importante eu ganhar).

Terceiro, vamos falar de verbos bitransitivos. São eles os verbos que costumam vir acompanhados de dois complementos de objeto, um direto e outro indireto. Esse tipo de verbo admite duas formulações diferentes em inglês, dependendo do que se quer enfatizar. Quando o objeto indireto é a informação nova ou enfatizada, esse vem posposto ao objeto direto e preposicionado (p.ex.: I gave the book to Pedro). Quando o objeto direto é a informação nova ou enfatizada, o indireto vem anteposto a ele sem preposição (p.ex.: I gave Pedro the book). Com certos verbos desse tipo, a saber, os que denotam a transferência de coisas ou ideias de uma pessoa a outra (p.ex.: give, leave, lend, offer, owe, mail/post, pass, pay, promise, read, refuse, sell, send, show, teach, tell, throw, wish, write), o objeto indireto representa o destinatário da transferência, enquanto com outros, os que denotam uma ação em prol de alguém (p.ex.: build, buy, get, make), o objeto indireto representa o beneficiário da ação. O objeto indireto destinatário é preposicionado com to, o beneficiário com for. Compare: “I gave a present to Rachel” x “I bought a present for Rachel.” Se a Rachel já foi mencionada no contexto, seria mais natural destacar o objeto direto, pospondo-o ao indireto: “I gave Rachel a present” e “I bought Rachel a present”.

Está ficando complicado? Pois então, vou ensinar o pulo do gato.

O brasileiro aprende na escola que, no português escrito mais formal, convém substituir a preposição para por a em certos casos. Embora ele possa não usar esse a em sua linguagem falada, ele sabe onde cabe ou não na linguagem escrita. Ele sabe que pode escrever “Dei um presente a Rachel”, mas que “*Comprei um presente a Rachel” não pode. Ele sabe que pode escrever “Vou a Nova York”, mas que “*vou embora a Nova York” não pode.

Então, vamos aproveitar essa intuição sobre o português e aplicá-la ao inglês: onde dá para substituir para por a em português, é preciso usar to em inglês; onde não dá para fazer essa substituição, ou seja, quando só se pode usar para, até na linguagem mais formal, é preciso usar for em inglês. Simples assim.

E a boa notícia é que essa regrinha funciona não só com os verbos bitransitivos, mas em muitos outros casos também, desde que o complemento da preposição seja substantivo ou pronome.

Só falta mencionar mais duas coisinhas.

Primeiro, a questão do infinitivo. Somente to pode vir seguido de infinitivo; já for só pode vir seguido de gerúndio terminado em –ing. E a locução for to + infinitivo não existe mais no inglês moderno. Convém lembrar aqui que o to que acompanha o infinitivo não é bem preposição, mas sim partícula. É diferente da preposição to propriamente dita, que vem seguida de gerúndio, assim como todas as preposições. Compare: “He used to work at night” (partícula) x “He’s used to working at night” (preposição).

Segundo, não esqueça que a preposição for pode corresponder também à preposição por em vários sentidos, a saber: motivo (p.ex.: for this reason), troca (p.ex.: Can I exchange these pants for a bigger size?), apoio (p.ex.: They are campaigning for equal rights) e duração (p.ex.: I’m going to Canada for two months).