Passeio de montanha-russa

Quero começar esse post pedindo a indulgência do leitor pelo conteúdo um tanto pessoal. É que acaba de ser lançada a segunda edição da minha Modern Brazilian Portuguese Grammar, e do Workbook que a acompanha. É um momento de muita realização pessoal e profissional para mim, e fiquei com vontade de compartilhar um pouco da história dessa jornada com você, caro leitor.

O meu histórico com o português e com o Brasil começou totalmente por acaso. Na época da faculdade na Inglaterra, conheci uns brasileiros num bar e fui convidado para uma festa brasileira, onde todo mundo falava português. Eu nunca tinha escutado o português do Brasil antes disso, pelo menos não conscientemente. Foi amor à primeira audição, e a jornada que culminou no lançamento dessa segunda edição da gramática, quase 40 anos depois, começou ali. Aquele encontro mudou o rumo da minha vida.

Sou autodidata em português com muito orgulho, nunca tive uma aula sequer e não possuo nenhum diploma na língua. Comprei um livro na época (ainda não existia a internet!) e aprendi na marra a me fazer entender na minha primeira viagem ao Brasil em 1982. Naquela ocasião, passei dois meses e meio aqui, hospedado em casas de amigos e viajando um pouco pelo país. Foi um curso de imersão total. Voltei para a Inglaterra mais apaixonado ainda pelo idioma, e caidinho pelo país. Nos anos a seguir, e encurtando um pouco a história, uma série de acasos fez com que eu acabasse me especializando na lexicografia bilíngue e no português. Fui me aprofundando cada vez mais na gramática e na leitura para aperfeiçoar meu conhecimento, aproveitando também as oportunidades profissionais que se apresentaram para colaborar com nativos da língua e vir ao Brasil outras vezes.

Uma das coisas que mais me frustrava quando comecei a estudar português era a falta de materiais sobre o português do Brasil especificamente. Todos os métodos e gramáticas disponíveis em inglês tratavam principalmente do português de Portugal, e só incluíam informações sobre “brasileirismos” em notas de rodapé e apêndices. Mesmo assim, as informações dadas eram poucas e falhas. Pior: como o português de Portugal era apresentado como a norma, sem explicitar que só se falava assim em Portugal, muitas vezes meus amigos brasileiros me olhavam com espanto quando eu reproduzia aquilo, ou simplesmente caíam na gargalhada. Além disso, logo percebi que as pessoas não seguiam as regras ditadas nas gramáticas na hora de conversar normalmente. Escutei de muitos brasileiros frases como “É que a gente fala errado”, “Brasileiro não fala direito” etc. Fiquei chocado com isso: um povo inteiro doutrinado a acreditar que não sabe falar a própria língua? Que história é essa?

Estudar idiomas sempre foi minha paixão, desde criança. Confesso que era meio nerd. Percebo agora que não gostava só dos idiomas em si, mas também dos métodos e gramáticas, e comecei muito cedo a escrever meus próprios, para mim mesmo. Adorava comprar cadernos e enchê-los de listas de vocabulário e conjugações, ou tentar reformular as regras apresentadas nos livros de uma maneira mais simples; o tipo de coisa que, como adolescente, você faz na surdina para não ser tachado de cê-dê-efe ou esquisitão. Olhando em retrospecto, acho que meu futuro já estava traçado.

Lá pelos idos de 2008, adquiri uma cópia da Modern Mandarin Chinese Grammar publicada pela editora inglesa Routledge, e gostei bastante do formato, dividido em duas partes: a primeira, uma gramática tradicional, com tudo explicadinho, e a segunda, uma gramática funcional, que ensinava como realizar funções linguísticas, tais como agradecer, fazer pedidos, expressar desejos, falar de si etc. Pesquisei e descobri que essa fazia parte de uma linha de gramáticas de vários idiomas, todas com esse mesmo formato. Um ano depois, numa entressafra de trabalhos, tive a ideia de propor à Routledge uma gramática do português do Brasil, mas com pouca esperança de ter a proposta aceita. Afinal de contas, demorou 30 anos, os últimos dez dos quais vivendo no Brasil, para eu me sentir à altura da empreitada.

Mal sabia eu na época que a minha proposta veio a coincidir com um miniboom na aprendizagem de português lá fora e o momento em que o Brasil virava o centro das atenções mundiais por seu forte crescimento econômico. Comecei a me dar conta disso quando recebi uma resposta positiva da editora dentro de 48 horas. Eles queriam a gramática e um livro de exercícios (workbook) para acompanhar, porque “o português do Brasil vendia.”

As primeiras edições ficaram prontas em 2010. Fiquei com muito medo de receber uma enxurrada de críticas: por não ser do meio acadêmico, por ter escrito uma gramática descritiva, ensinando além da gramática normativa a sintaxe da língua falada do dia a dia, aquela que muitos brasileiros consideram “errada”, embora eles mesmos falem assim também. Acredito que uma das vantagens de ser estrangeiro é poder ter uma visão mais objetiva do idioma, sem preconceito e juízos de valor.

No frigir dos ovos, foi tudo bem. Tudo bem não, foi tudo maravilhoso! A aceitação da gramática tem sido muito gratificante: excelentes resenhas tanto na Amazon como em revistas acadêmicas e blogs, mensagens de pessoas desconhecidas de vários países elogiando meu trabalho, adoção como livro-texto nas faculdades mais conceituadas dos países de língua inglesa, vendas robustas e a encomenda de uma segunda edição … estou muito feliz com a repercussão! Sempre quis fazer uma contribuição para o mundo, deixar a minha marca, mesmo que fosse apenas na minha areazinha de expertise. Pode não ser a física quântica, mas sem dicionários e gramáticas, ninguém se comunica.

Se você me acompanhou até aqui, caro leitor, pode estar se perguntando por que eu optei por escrever este post em português, já que trata de livros destinados a nativos de inglês. É porque, neste momento importante para mim, o intuito do post é agradecer a vocês brasileiros, ao Brasil, meu país adotivo, por ter me proporcionado os grandes amores da minha vida e esse passeio de montanha-russa que dá prazer e emoções fortes em medidas iguais.

11 thoughts on “Passeio de montanha-russa”

  1. Muito legal ler mais sobre tua história. Teu conhecimento de Português já supera o de muitos falantes nativos e isso é algo admirável. Tenho esse mesmo amor pelo inglês, aprendi sozinha, lendo e traduzindo várias coisas em uma época que não existia internet. Sofre-se mais, mas a recompensa é maior. Andei pelos lados do alemão também, pois me fascina muito, justamente pela similaridade de vocabulário com o inglês. Enfim, mesmo estando milhas e mihas longe do teu conhecimento, compartilho desse teu amor pelas línguas. Agora tenho a oportunidade de ser tua aluna EAD e sinto que aprender com um falante nativo que conheça a língua do aprendiz é a receita perfeita para ter sucesso. Obrigada por compartihar tua história e teu conhecimento. Sou tua fã.

  2. Que história boa que você tem! Paixão pelas palavras e tudo o que envolve esse mundo é algo realmente gratificante. São pessoas que fazem trabalhos como o seu que nos possibilitam trafegar por esse caminho de forma mais tranquila e segura. Já tive aula com você (pós EAD) e aprendi muito com sua metodologia. A sua “areazinha de expertise” ajuda muita gente, tenha certeza! Obrigada por essa sua contribuição para o mundo (nós). Abraços.

  3. Admirável professor,
    Meus sinceros parabéns por perseguir sua intuição e pela contribuição da sua nova e preciosa obra.
    Você, como estrangeiro, dá muito tapa na cara da brasileirada!
    Sou sua aluna na Turma da Pós- Graduação em Ensino da Língua Inglesa na Estácio e já me tornei sua fã.
    Um fraterno abraço!

  4. Obrigada por esclarecer uma dúvida que sempre tive, relativa ao uso do to and for. Maravilhosa a sua explicação.
    Também gostei dos outros posts.

  5. Estou muito impressionada com a fluência e correção do seu português. Acho os nossos livros de gramática muito desinteressantes e penosos. Por isso, me animei a comprar seu livro e workbook. Parabéns!

  6. Acho sua história interessante. E como admirador do seu trabalho e da sua pessoa, só consigo lhe desejar parabéns!
    Espero um dia ser tão importante quanto vc John

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