Em busca do sotaque perfeito

Já ouvi de muitos brasileiros que ficam com vergonha de falar inglês por não ter “um sotaque perfeito”. Acho que querem dizer “sotaque de nativo”, mas é uma pena, porque não é preciso soar como um nativo para falar bem. Nada mais normal quando se fala uma língua estrangeira do que ter o sotaque da sua língua materna. Pode até ser charmoso, a nossa marca registrada. O importante é se fazer entender. E nesse quesito, os nativos de inglês são muito condescendentes, pois, além dos inúmeros sotaques regionais da nossa língua, estamos muito habituados a ouvir o inglês falado como segunda língua, com todos os sotaques possíveis e imagináveis. Não ligamos para isso. Até agradecemos, por reconhecer que a nossa vida seria bem mais complicada se a língua franca mundial não fosse o inglês.

Agora, a gama de sotaques, nativos e não, pode ser grande, mas existe um certo limite, a divisória entre um sotaque carregado e a ininteligibilidade. Se a pessoa distorcer a pronúncia das palavras além desse limite, o interlocutor não consegue mais “remendá-las” mentalmente, ou seja, simplesmente não entende. É exatamente igual a quando a fala do outro fica picotada no celular: até certo ponto, dá para entender ainda; além desse ponto, fica impossível. Quando o interlocutor também é não nativo, a margem de tolerância fica menor ainda porque o não nativo tem menos capacidade de “remendar”.  Não é preciso “o sotaque perfeito”, mas é importante se empenhar por uma pronúncia correta.

Quando o assunto é pronúncia, é importante expor o aluno a uma variedade de sotaques, nativos e não, especialmente quando o professor tem a mesma língua materna que o aluno, porque é sempre mais fácil entender uma pessoa que fala com o mesmo sotaque que você, porém o objetivo da aprendizagem é justamente se comunicar com pessoas que não tenham esse mesmo sotaque. Um problema generalizado no ensino de idiomas é que o aluno muitas vezes passa a entender o professor e seus colegas de aula às mil maravilhas, enquanto não consegue captar as mesmas palavras e frases quando proferidas por outro falante do idioma. E pelo mesmo motivo, esse outro falante pode não entender o inglês dele.

Hoje em dia, o aprendiz de qualquer idioma tem fácil acesso a um sem-número de recursos em áudio e vídeo para treinar a compreensão auditiva (listening) e a pronúncia. Se a língua estrangeira for inglês então, existe uma verdadeira infinidade de materiais adequados para essa finalidade. No entanto, se o aluno não tem um ouvido muito apurado, ou o dom da imitação, ele não vai melhorar sua pronúncia só escutando a língua. Ele pode melhorar sua compreensão auditiva, isso sim, mas a pronúncia é outra história.

Parte do problema é que não ouvimos diferenças fonéticas que não existem no nosso próprio idioma. É simplesmente fato. Veja o exemplo das vogais longas e curtas em inglês: para o brasileiro, é a priori impossível ouvir a diferença entre o i longo de cheap e o i curto de chip porque a língua portuguesa só possui um som i cujo comprimento fica entre os dois sons ingleses. Pela mesma razão, quando o brasileiro fala cheap, o som de i que ele coloca costuma soar um pouco curto demais para o nativo de inglês, e quando ele fala chip, soa um pouco longo demais. Isso não é crítica; é simplesmente uma realidade da fonética. Do mesmo modo, custei a ouvir a diferença entre ê e é e ô e ó em português. Tento reproduzi-los corretamente, mas sei que ainda erro às vezes. É que, como essa distinção não existe em inglês, tenho que fazer um esforço consciente para acertar, não vem naturalmente. Mas como o contexto garante a interpretação certa na maioria dos casos, tanto o brasileiro como eu podemos nos comunicar sem maiores problemas, mesmo com essas imperfeições de pronúncia e ainda sem necessariamente conseguir diferenciar os sons quando isolados. Na verdade, enquanto o aluno não for conscientizado desse tipo de problema, ele não ouve a diferença entre sua própria pronúncia e a correta. Assim, sua pronúncia de looked como  [ˈlukid] em vez da correta [lʊkt], de two como [tʃu] em vez de [tu] e de Brazil como [braˈziw] em vez de [braˈzil] passa batida por ele mesmo.

Para corrigir esses problemas efetivamente, não basta ser conscientizado deles. É preciso entender o porquê do problema, a origem dele. Já preconizei em outros posts a necessidade de rastrear erros gramaticais de inglês na gramática portuguesa para poder entender o motivo do erro e corrigi-lo definitivamente. Pois então, o mesmo vale para erros de fonética: temos que buscar as causas na fonética do português, ou melhor, na fonologia portuguesa, isto é, no sistema fonético da língua materna. Por exemplo, a dificuldade com looked vem do fato de que, embora o português admita o encontro consonantal [kt] (exemplos: conectar, impacto etc.), a fonologia brasileira faz com que o brasileiro tenda a inserir um i entre as duas consoantes ([konekiˈtar, ĩˈpakitu]), e em hipótese alguma o som [t], e muito menos a combinação [kt], podem ocorrer ao final de uma palavra como acontece no inglês. Do mesmo modo, a fonologia do português faz com que a letra l, quando ocorre em final de sílaba, pronuncie-se como [w]. O brasileiro não consegue deixar de aplicar essa regra quando pronuncia o inglês porque é inconsciente e instintiva. Diga-se de passagem que, por coincidência, existem muitas variantes regionais do inglês em que se opera a mesma regra. Uma delas é o sotaque de Londres, o cockney, exemplificado pela cantora Adele, cujo Skyfall sai como Skyfaw.

O exemplo de looked aponta para outro problema: a interferência da ortografia na pronúncia. Estamos todos carecas de saber que a ortografia inglesa não é nada lógica e muito menos fonética. Às vezes não só dificulta, como também engana. No looked, há um e entre o k e o d, parece que a sílaba deveria se pronunciar [kɛd] ou [kɪd]. Mas não! Esse e é mudo, só fica ali de enfeite. Nem sílaba é: a palavra tem apenas uma sílaba [lʊkt]. Por esse motivo, acho importantíssimo explicitar ao aluno de inglês, bem no início da aprendizagem, que é preciso se abstrair da grafia das palavras e decorar a pronúncia independentemente da grafia.

Os símbolos do alfabeto fonético internacional (IPA) podem ser de grande ajuda nessa tarefa. Sou muito a favor da introdução desses símbolos no ensino da pronúncia. Na era de aplicativos text-to-speech e dicionários online com áudio, não é mais imprescindível saber ler a transcrição fonética da palavra no dicionário para descobrir a pronúncia dela, mas a aprendizagem dos símbolos fonéticos serve outra finalidade também: possibilita o estudo e aperfeiçoamento dos sons do idioma por si sós, começando por percepções bem básicas, do tipo: quantos sons distintos há na língua inglesa, quais existem em português também e quais não, quais requerem uma atenção especial do aluno, quais são difíceis porém importantes de se diferenciar, quais são as grafias comumente associadas com um determinado som etc. etc. Saber reconhecer e reproduzir os sons do idioma em isolamento é um importante primeiro passo rumo a uma pronúncia boa e correta.

Quais são algumas das dificuldades de pronúncia mais recorrentes do brasileiro? A diferenciação de vogais longas e curtas ([i] x [ɪ], [u] x [ʊ]); a diferenciação das vogais [æ] e [ɛ]; a pronúncia de consoantes em final de sílaba sem adicionar um i; a pronúncia de d e t antes de i e em final de sílaba sem palatalização (ou seja, sem pronunciá-los como o d de dia e o t de tio); a pronúncia de l, m e n como tais em final de sílaba; a pronúncia de encontros consonantais sem inserir um i no meio; a pronúncia de palavras começadas por s + consoante sem antepor um i ao s; a confusão de h e r iniciais, entre outras. Essas dificuldades são comuns a todos os brasileiros porque são condicionadas pela fonologia do português.

O divertido é criar e ensinar estratégias para superar e contornar essas dificuldades. É preciso dar macetes e dicas, pois o aluno dificilmente conseguirá eliminar o erro pela simples imitação. Quem não ouve diferenças não consegue reproduzi-las. Se o aluno ouvir [braˈzɪw] toda vez que eu falo [braˈzɪl], a imitação não leva a nada. É preciso explicar que o l final é igual ao l de , demonstrar que se encosta a ponta da língua nos alvéolos dentários ao pronunciá-lo, treinar palavras como all, well, ill, eel, hole, pull, pool etc., mandar o aluno exagerar a pronúncia do l até se conscientizar da diferença entre a pronúncia correta e a errada, e assim por diante.

É importante trabalhar a pronúncia como um capítulo à parte, além de corrigi-la sempre que foge da inteligibilidade, porém sem inibir o aluno a tal ponto que ele não se atreve mais a abrir a boca. Em conclusão, reitero o que eu disse no começo desse post: nada mais normal quando se fala uma língua estrangeira do que ter sotaque. O importante é se fazer entender. Não se perca na busca do “sotaque perfeito”.

Fala Rachel:

1 thought on “Em busca do sotaque perfeito”

  1. Excellent video!!!!!!!!!!!!!
    I am a Brazilian but I learned English “based” on Italian so I tend to mark the pronunciation of the dark L too much (the opposite of most of my fellow countrymen)…………
    Native speakers have called my attention also regarding the final “n” and “m…”
    Well, one day I’ll get it right!

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