A vida privada do gerúndio inglês

O gerúndio, também conhecido no ensino de inglês como “the –ing form”, é um bicho interessante. Para começo de conversa, existe certa confusão a respeito da denominação gramatical da forma, especialmente quando se compara com o português. Em inglês, a forma  chama-se gerund quando funciona como substantivo (p.ex.: walking is good for you; I like walking; the benefits of walking etc.) e present participle quando funciona como verbo (p.ex.: I was walking home; I get my exercise walking to work etc.) ou adjetivo (p.ex.: he’s a walking dictionary). Seu uso verbal, como particípio, corresponde ao uso da forma verbal terminada em –ndo em português, ou seja, o que a Nomenclatura Gramatical Brasileira chama de gerúndio. A -ing form como substantivo (o gerund inglês) traduz-se pelo infinitivo em português. Daí o uso da denominação “the –ing form” para evitar essa confusão.

A confusão surgiu porque a -ing form da língua moderna é de fato o resultado da (con)fusão de duas formas distintas. A -ing form como gerund tem sua origem no sufixo –ung ou –ing, usado no inglês antigo (Old English) para formar substantivos a partir de verbos, da mesma forma que se faz com sufixos tais como –ção e –mento em português. Nesse caso, a desinência –ung/-ing não era uma flexão do verbo, mas sim um sufixo derivacional, ou seja, criava uma palavra nova e não se podia adicionar a qualquer verbo.

Já a –ing form como particípio deriva-se de uma forma verbal do inglês antigo terminada em –ende, que virou –ing no inglês médio (Middle English). A fusão, ou confusão, dos substantivos verbais com os particípios presentes, ambos terminados em -ing, já estava anunciada nessa época. A locução verbo to be + forma terminada em –ende/-ing já existia no inglês antigo, mas denotava uma ação de longa duração, só passando a denotar uma ação contínua ou progressiva no século XVI. A confusão das formas foi exacerbada pelo fato de se poder expressar a mesma ideia usando o verbo to be com a preposição in ou on seguida de um gerúndio (isto é, to be in/on doing).

Por ser uma flexão, a desinência –ing do particípio podia-se acrescentar a qualquer verbo e por isso o sufixo derivacional –ing também acabou transformando-se em flexão, usada para formar um verbo nominal, ou substantivo verbal, aquilo que se chama de gerund. Até hoje, esse tipo de palavra pode ser usado mais como substantivo (p.ex.: the crowning of the queen was an important moment) ou mais como verbo (p.ex.: crowning the queen was an important moment). Um gerund pode ter sujeito próprio, geralmente no genitivo no inglês formal (p.ex.: John’s coming to visit was a pleasant surprise/his coming to visit …). No inglês normal, diz-se John coming to visit …, mas se o sujeito for pronome, usa-se a forma oblíqua desse (him coming to visit was a pleasant surprise).

A forma em –ing funciona como substantivo em três casos: 1) quando é sujeito de outro verbo ou complemento do verbo to be; 2) quando é objeto de outro verbo, e 3) depois de uma preposição. Nesses casos, corresponde ao uso do infinitivo em português. Vejamos alguns exemplos: 1) Walking is good for you (Caminhar faz bem à saúde); My favourite pastime is watching TV (Meu passatempo preferido é ver TV). Nesses contextos gramaticais, é possível usar o infinitivo com to também, mas soa muito formal, e portanto não caberia nos exemplos dados acima. Observe-se também a diferença entre Learning Chinese is difficult (= Aprender chinês é difícil) and It’s difficult to learn Chinese (= É difícil aprender chinês). 2) I enjoy walking (Eu curto caminhar); He’s finished painting the house (Ele terminou de pintar a casa); I don’t remember seeing this movie (Não lembro de ter visto esse filme) etc.; 3) Thanks for helping me! (Obrigado por ter me ajudado!); the advantages of living in a big city (as vantagens de se morar numa cidade grande); after reading the book (depois de ler o livro); I’m used to getting up early (Estou acostumado a acordar cedo) etc. Em todos os casos acima, é possível o gerund ter sujeito próprio, p.ex.: him telling the story is hilarious; the funniest part is him telling the story; I don’t like the students calling me ‘teacher’; he did it without anyone knowing; the chances of us winning; I’m used to them teasing me etc.)

Devido à influência do português, é muito comum o brasileiro errar usando o infinitivo (geralmente sem to, mas nem sempre) depois de uma preposição (ouve-se: *Thanks for help me, *the advantages of (to) live …, *after (to) read …, *I’m used to get up …). A regra em inglês é que qualquer preposição pede a –ing form (gerund) e não o infinitivo. A única dificuldade é com a palavra to, que segue a mesma regra que as outras preposições quando é preposição mesmo, mas que também ocorre como partícula marcadora do infinitivo (veja o post Whatever happened to the English infinitive?), o que embola o meio de campo. De forma geral, pode-se dizer que, no caso de locuções em que o to também pode vir seguido de um substantivo ou pronome (tais como look forward to, object to, be/get used to, prefer [something] to, get around to, commit yourself to, in addition to etc.), é preposição, e portanto pede o gerund (p.ex.: I’m looking forward to seeing you; she’s used to getting up early; I prefer surfing the web to watching TV; in addition to singing, he also plays piano). Entre as inevitáveis exceções são agree to, entitled to e inclined to, que pedem o infinitivo (p.ex.: he agreed to come, she’s inclined to forget things).

Como verbo propriamente dito, a –ing form corresponde ao gerúndio português terminado em –ndo. Emprega-se na formação dos tempos progressivos (I am doing, I was doing, I have been doing etc.) e em usos adverbiais (p.ex.: We sat talking for hours; I get my exercise walking to work; Seeing the light on, I knew they were at home etc.). Como em português, a –ing form pode ter sujeito próprio, diferente daquele do verbo principal (p.ex.: We all set off together, Bob leading the way).

Quanto ao uso da –ing form como adjetivo, às vezes corresponde ao uso de um adjetivo terminado em –nte ou –dor em português, p.ex.: a walking dictionary (um dicionário ambulante); a reassuring smile (um sorriso tranquilizador) etc., mas nem sempre existe um adjetivo desse tipo em português. Observe também que, em locuções tais como sleeping car, working conditions (vagão-leito, condições de trabalho) etc., o primeiro elemento é gerund, enquanto em a sleeping dog, working people (um cachorro que dorme, pessoas que trabalham) etc., o primeiro elemento é particípio adjetivo.

2 thoughts on “A vida privada do gerúndio inglês”

  1. Valeu por mais um post esclarecedor, John!
    Eu já suspeitava disto, mas, depois de ler o artigo, não resta dúvida de que o -ing veio do -ung do alemão (mas eu não sabia que o -ing também veio do -ende, este último também presente na língua germânica).
    Grande abraço e que venha logo o próximo artigo!

    1. Obrigado, Maurício! De fato. é impressionante o quanto o Old English era parecido com o alemão moderno (na verdade, não é para menos, já que os anglos e saxões eram alemães). Se não fossem os normandos, provavelmente daria para os ingleses entenderem alemão sem estudar a língua! Grande abraço!

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